
Sobem os créditos iniciais de "Saló - 120 Dias de Sodoma" e neles os nomes dos atores não estão creditados por sua profissão, mas como vítimas femininas e vítimas masculinas: que cinema não é obra de exposição?

Enclausurados dentro de uma mansão, aos jovens italianos de "Saló" (baseado no texto original de Marquês de Sade) não lhes resta mais nada, lembremos da cena no início em que uma garota é dispensada do recrutamento por lhe faltar um dente, comparação óbvia com a escolha de um animal, os jovens, o humano, em "Saló" é tratado basicamente como pura bosta. Um chute no saco a tudo aquilo que Pasolini já havia atacando durante todo seu cinema (e talvez por isso "Saló" seja sua obra mais comunal), cada personagem de palavra no filme representa uma ordem de poder, o duque (a nobreza), o bispo (a igreja), o presidente (a política) e o magistrado (a justiça) - só ficou de fora um jornalista no controle da mídia.
Horroshow em pelicula, no segundo e mais contudente ato do filme, o Círculo da Merda, um dos algozes força uma jovem a comer seu escremento: a garota terá que engolir tudo aquilo que já foi produzido, digerido e defecado, ela terá que comer todo o podre do sistema humano. Nessa cena, Pasolini propõe mais do que um exercício fugaz de exposição (ao contrário da gritante e infantil técnica de Gaspar Noé em "Irreversível" que mais parece um capítulo de novela global com softgore) ele está questionando toda a estrutura social como produtora e alimentadora do proletariado - perceberemos isso da forma em que Pasolini escolhe começar a filmar a cena, ele a filma de longe.
Mas além de "Saló" mexer em casa de marimbondo, ele cinematográficamente oferece uma experiência sadística para aqueles corajosos que o contemplam, como querendo instalar no espectador uma "mea culpa", a culpa de se estar assistindo, a culpa de ser apenas espectador. Função vouyeristica do olhar aonde nem o próprio diretor deve ser riscado - para Pasolini quem filma/acusa é também responsável, colocando todos no mesmo patamar, artista e receptor. Desta maneira, Pasolini é anti-Tropa de Elite ou anti-Funny Games onde o diretor italiano, diferente do brasileiro e do francês, não joga o espectador a sós aos leões tirando o seu da reta. Muito pelo contrário: ele não se importa em morrer na cruz do politicamente correto para libertar nossos olhos dos pecados dos falsos justos.
(Salò o le 120 giornate di Sodoma) Itália, 1975. Direção: Pier Paolo Pasolini. Elenco: Paolo Bonacelli, Giorgio Cataldi, Umberto Paolo Quintavalle, Aldo Valletti, Caterina Boratto. 116 min.

Saló - 120 Dias de Sodoma será exibido em São Leopoldo dentro da Novembrada de Cinema que acontece este mês na cidade, no dia 5 - Quarta-Feira - as 21 horas no teatro municipal. Também será exibido o curta Fulminante de Totonho Lisboa e Darkness-Light-Darkness de Jan Svankmajer, sendo que este último ganhará trilha sonora executada ao vivo pelos músicos Gustavo Roth e Zeca Baronio.
O evento é uma organização do São Saruê Sinècrub e da Secretaria de Cultura de São Leopoldo.
Entrada franca.



















