domingo, 30 de agosto de 2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Confissões de uma Garota de Programa
Do grão ao pixel: Assim como o som e a cor foram evoluções fundamentais ao audiovisual, o digital permitiu que uma terceira geração de cromossomos fossem concebidos. Estamos agora completando uma década com este novo suporte aonde o reviramos do avesso em busca de desmestificar suas capacidades. E como um resultado do empenho tecnológico dos últimos anos surge este “The Girlfriend Experience”, como um novo sinal de vida no batimento cardiáco de seu diretor, onde o digital se sente. E o projeto não poderia ser mais bizarro ao se trata de um registro diário de uma garota de programa de luxo interpretada por uma atriz pornô, comandado por um Steven Soderbergh que muitos já haviam dado como falecido (trilogia “Muitos Homens e Um Segredo”, e o duplo “Che”) pronto para o experimento. “The Girlfriend Experience” é o segundo trabalho do diretor criado através de sua parceria com a produtora HDNet Films de produzir um total de seis filmes a serem lançados simultaneamente nos cinemas, na televisão e em vídeo (o primeiro havia sido o muito bom “Bubble”) e é talvez o primeiro filme a relembrar o tipo de cinema que o fez famoso desde “Sexo, Mentiras e Videotape”.
“The Girlfriend Experience” faz qualquer formado em cinema voltar para o jardim de infância. Como uma criança que pergunta interruptamente “O que é isso?” até ganhar a devida resposta, levamos um tempo para nos familiarizar, para nos acostumar, como é impressionante a forma como o filme é digitalizado em tela. E a história para qual esta câmera é voltada (uma maravilhosa Red One) é a mais exata para o deleite visual que acaba sendo gerado: a famigerada Sasha Grey, que você deve conhecer muito bem de filmes do seu acervo secreto como “Anônimos Comedores de Ânus 19″, “Acrobacias Anais” e “Senhor dos Anais 13″ , vive uma espécide de namorada de aluguel chamada Chelsea, que os homens pagam para sair, conversar, ou foder. O ótimo roteiro percorre os encontros de Chelsea casualmente voltados aos homens, normalmente ricos empresários, e usa tudo isto de pano de fundo para construír sua análise sob a crise econômica (os homens em alguns momentos usam Chelsea como psicóloga para desabafar seus problemas financeiros, e as vezes trocam fazer sexo com ela para ficar no telefone falando com seus agentes), tudo isto em uma narrativa feita em fragalhos e capturada por lentes inovadoras.
Talvez sem querer, Soderbergh tenha feito aqui uma pura versão neorealista de “A Bonequinha de Luxo”, em todos os sentidos, tanto de história quanto na maneira como ela é transporta. Maravilha o quão poderoso e humano o sistema pode ser, inclusive na minha exibição do filme, que eu fiz diretamente ligada em disco virtual preservando o digital, em várias tomadas de alta iluminação meu televisor emperrou, não aguentando o alto número de pixels e engasgou o filme. É difícil descrever o que “The Girlfriend Experience” é, só se torna compreensivo quando frente aos olhos, talvez só depois que todo o filme acaba, ou talvez só seja mesmo notado em estudos futuros. A única maneira até então de vermos esta espécie de vidro com movimento era trazendo da China as obras de Jia Zhang-ke, mas agora, ao trazer para o cinema americano, Soderbergh coloca o digital em outro ecossistema, nas lojas, hotéis e restaurantes de gala que Chelsea freqüenta, aonde ela pouco sabe ser apenas mais outro supérfluo dos seus clientes.
No derradeiro final onde Chelsea comprova que ela não é só buceta, mas também cérebro e coração, é possível sentir sim uma emoção pela personagem, em uma forma de captura que antigamente a artificializava, o que põe abaixo toda a opinião de saudosistas de que apenas na película que há verdadeiro cinema. Seja fotoquímico aplicado ao rolo ou processo fotoelétrico, onde a luz torna-se eletricidade e é codificada em fileiras de 0 e 1, “The Girlfriend Experience” acaba com qualquer mito arcáico e estabelece o digital como o mais novo óculos da atualidade. É uma transformação da vista, uma transformação da imagem. É ver o digital aproximando-se do orgânico.
“The Girlfriend Experience” EUA, 2009. Direção: Steven Soderbergh. Estrelando: Sasha Grey, Chris Santos, Peter Zizzo, Timothy J. Cox, Timothy Davis. 78 minutos.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Sexta-Feira o é o fim do cinema
Sexta-Feira Jesus Cristo de Nazaré vai voltar a vida; acabará a fome no mundo; será descoberta a cura do câncer; os carecas vão ficar cabeludos; o Twitter vai se tornar útil; a gripe H1N1 vai desaparecer; e até aquela menina que foi jogada pela janela em 2007 vai ressuscitar e voltar a janela em time-reverse.
Sexta-Feira é a estréia mundial de 15 minutos de "Avatar", novo filme de John Cameron que pretende revolucionar todo o cinema com uma técnica de 3D estereoscópico que simula a visão humana. Depois dirigir o maior filme do mundo, "Titanic", Cameron apenas se dedicou a este projeto, que ainda não ganhou os olhos do público de maneira nenhuma, nem uma foto foi divulgada. Os cineastas que tiveram a oportunidade de verem algumas cenas sairam largando na internet as mais maravilhadas declarações, dissendo que separará o mundo do cinema como Moisés separou o Mar Vermelho (o eufenismo é de minha parte) e o NY Times comparou com a estréia de "The Jazz Singer", o primeiro filme com som da história.
Mas sério mesmo que essa coisa de 'marketing de guerrilha' já não deu?
Não que eu queria estragar os sonhos dos nerds gordos, porque eu também sou facilmente entretido, fora que eu nem vi estas sacras imagens e pode muito bem ser que Cameron tenha desenvolvido um meio que será de agora em diante adotado e fará parte do cotidiano cinematográfico, mas é que com essa propaganda viral (que intantâneamente assume o filme com um produto) todo o entusiasmo que deveria vir em primeiro lugar do filme em si, acaba sendo emitido pela publicidade que o circula. A propaganda se torna um falso santo.
Me lembro quando foi lançado o chocolate Bis branco, vinha escrito na embalagem que era uma novidade que ficaria por tempo limitado. O Bis branco existe até hoje.
O espectador se transformou em um personagem de videogame sendo jogado/manipulado pelas empresas de cinema. Começou no seriado "Lost", foi parar em "Cloverfield", depois virou aquele perrengue em "Batman - Cavaleiro das Trevas" (como pode as pessoas adotarem de braços tão abertos o "Why So Serious?" sem se perceberem apenas parte de um rebanho sem uma identidade criativa pessoal?), mas depois que aquele maldido DVD pirata de "Tropa de Elite" vazou o Brasil também percebeu a beleza da jogada de marketing. E agora o AvatarDay Sexta-Feira acontece no Brasil também, junto com as cópias do novo filme de Quentin Tarantino "Bastardos Inglórios" e pode ser muito bem que Cameron fature outro Bilhão baseado no simples ato de instigar a curiosidade. Mas mesmo depois de "The Jazz Singer" os filmes mudos do Chaplin continuam com o mesmo encanto, então ainda que "Avatar"modifique todo o cinema como ele é feito, não será por isso que as obras tradicionais perderão seu encantamento. Não há motivos para cair no enlouquecimento publicitário, por mais que Sexta-Feira seja um novo dia que irá revolucionar o cinema, ainda assim será só um dia.
E Nostradamus foi um babaca de não ter previsto isso.
sábado, 15 de agosto de 2009
TEC - Grain Elevator
- Versão Youtube
Estas são imagens da vídeo-instalação "Grain Elevator" realizada na Feira do Livro de Canoas.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Não se esqueçam dele
A partida de John Hughes, o principal escritor americano a ilustrar a imagem da adolescência nos anos 80, não pode passar em branco quando nenhum outro foi capaz de escrever tão apaixonadamente sobre a juventude e ao mesmo tempo compreendê-la dentro dos próprios filmes, pois ao invés de dramas, são comédias que comemoram o comming-of-age com toda a diversão que pudesse ser arquitetada pelos estúdios. Dentro deles havia o retrato dos sentimentos de toda uma geração que com o tempo acabou sendo passado a diante, com os títulos sempre presentes na "Sessão da Tarde". Não conheço criança que não tenha visto os filmes de Hughes assim como não conheço velho que os tenha perdido. Pelo seu grande talento em criar histórias adoráveis, os filmes de Hughes acabaram desenvolvendo essa longa vida (não há Natal em que a Globo não exiba "Esqueceram de Mim 2"), livres de peso, são filmes agradáveis de se assistir, e é agora na sua despedida que eles pedem mais uma revisão.
Desaparecido do cenário cinematográfico desde 1994, Hughes se retirou do público vivendo em Wisconsin, raramente dando entrevistas ou deixando ser fotografado pela mídia. Hughes se recusou a receber o prêmio por homenagem a importância de "O Clube dos Cinco", não comparecendo a cerimônia do MTV Movie Awards, mas devidamente lembrado pela atriz Molly Ringwald ao subir no palco. Sua última atividade foi ter gravado em 1999 o comentário de áudio para o lançamento em DVD do péssimo "Curtindo a Vida Adoidado". Ao passar pela sua página no IMDb, repleta de sucessos, um título pula no olho: é seu o genial roteiro de "Weird Science" (no Brasil, "Mulher Nota 1000", mas preservamos o inglês pela lembrança da maravilhosa música de mesmo nome do Oingo Boingo). Para mim "Weird Science" sempre foi uma obra de arte, e tudo graças ao sub-texto, uma clara metáfora ao sentimento adolescente de escapulir da decrépita instituição familar, cheia de valores ultrapassados tão diferentes dos seus. O último ato do filme é bruto: quando os avós vão visitar os garotos que deram uma festa e acabam sendo desfigurados e presos dentro do armário, enquanto o ambiente é completamente posto aos ares. Não há imagem melhor para simbolizar a vontade de fuga e independência (se lembre que tudo começou pelos jovens quererem brincar de Deus e criarem uma mulher que fosse perfeita) quanto a imagem da casa sendo destruída. Seria preciso escrever um ensaio completo para dar justiça a inteligência que se esconde no roteiro de Hughes para "Weird Science" e ainda assim em palavras, com o número de caracteres que fossem precisos, eu não poderia transportar a encantadora sensação de desfrutá-los.
Se a contemporaneidade ovaciona o clima sombrio ao invés do divertimento cerebral, é ai que os filmes de Hughes não poderiam fazer mais falta. Ficamos agora com este clima de inocência perdida no cinema, mas assim como Hughes sempre falou dela na passagem do jovem para o adulto em seus roteiros com entrenimento, não demos a ele o luto, mas o agradecimento por se relacionar tão bem com aqueles sentimentos que nos eram importantes. E para isso, basta assistí-los.
Por coincidência do destino, está em produção um documentário independente chamado "Don't Forget About Me" sobre estudantes que tentam reencontrar Hughes e propôr uma discussão sobre seus filmes com uma série de astros que protagonizaram eles. Com a notícia da sua partida, a equipe do filme colocou no ar o primeiro trailer e uma nota informando que a produção será dedicada em sua memória:
Site do documentário
Página de John Hughes no IMDb

