domingo, 22 de novembro de 2009

Ford Corcel

ou Como Fazer um Filme Nacional Decente

Há alguns anos atrás morei em um prédio bem classe alta, isolado, e próximo de uma vila boca-braca, provavelmente foi o melhor lugar que eu já vivi, tinha até banheiro com hidromassagem e outras coisas veadas. A alguns andares abaixos de onde morávamos, acho que no segundo andar, vivia sozinho um velho rabugento aposentado, aquele tipo de vizinho véio que sem ocupação e nada pra fazer acaba matando o ócio cuidando da vida dos outros e procurando problema, que te chama de baderneiro e reclama do barulho por você ter deixado um floco de algodão cair no chão (surdo é meio assim né? só ouve quando quer). Mas um detalhe particular do velho é que ele ostentava na garagem um clássico Ford Corcel antigão, bem cuidado, religiosamente polido, recauchutado e brilhoso.
O carro chamava atenção de todo mundo, não tinha quem não olhasse para aquele baratão.

Há essa altura você deve estar se perguntando se eu perdi meu juízo mental e transformei este espaço em um diário de recordações. Ocorre que eu não tenho mesmo uma boa conclusão para esta história, simplesmente acabei me mudando deste prédio super rapidamente e nunca mais vi nem o velho, nem o Corcel. Mas, alguns meses antes de eu sair de lá me lembro que o velho tinha decidido atravessar a passarela para o lado negro da cidade, sozinho e a noite, e acabou cruzando com uma galera similar a do Alex DeLarge e terminou levado uma pancada na fuça, o que o deixou com um olho roxo e mais puto da vida.

Conto isso para fazer ligação com o novo filme de Clint Eastwood, "Gran Torino", que há essa altura já deve ter chegado em DVD e muita gente deve ter assistido, e se ainda não viu, deveria, parece um revival oitentista com Eastwood no papel de macho mais macho do cinema, mesmo tendo seus quase oitenta anos de idade. A história é muito parecida com a do meu vizinho, é sobre um vetarano da Guerra da Coréia chamado Kowalski, velho amargo e ranzinza, que ainda não conseguiu engolir o passado e o mantêm preso na garganta, mas aos poucos vai amolecendo com a amizade da família vizinha de asiáticos. Ah, e ele guarda um puta modelo Gran Torino na garagem.

Permita-me desviar o texto mais uma vez, logo agora que tava pegando no tranco - mas prometo que no final vou amarrar tudo -, estava conversando estes dias com uma amiga que se impressionou muito com o fato de eu nunca ter assistido "Cidade de Deus", filme que sinceramente nunca me deu o menor interesse, e nunca o ví como um furo na minha coleção(furo é eu ainda não ter visto todos do Yasujiro Ozu, algo que vai ficar de promessa para o ano novo), perguntei para ela então o que achava do filme brasileiro, e ela me respondeu que achava legalzinho...mas que pouco se interessava por toda a violência e lamentava o cinema nacional sempre recorrer a isso para conseguir prestigio. Claro que a essa altura eu já estava quase a beijando na boca, chamando de meu amor, e construindo um barraco para nós vivermos, até porque esta simples opinião de que estamos atualmente em um período onde a violência é sinônimo de amadurecimento intelectual é a das mais verdadeiras - recomendo a leitura deste texto de Tom Jacobs, onde ele começa investigando como o sexo e a nudez afetam o retorno financeiro de um filme e acaba chegando a uma conclusão um bocado complicada.

Tenho pensado muito em "Gran Torino", e em como o filme poderia funcionar perfeitamente em nossas terras. Como nos filmes brasileiros, há uma crítica social, mas ela fica protegida ao fundo e não alardamente destacada como nossos cineastas o fazem, Eastwood sabe que o envolvimento e a história são importantes e só fortalecem a ocasional lição de moral. E é um filme tão fácil, com poucos atores, poucos cenários, sem necessidade de muitos gastos (já que dinheiro é sempre a desculpa número um aqui para ser imcompetente), sem linguagem publicitária, sem piadinhas fáceis, sem palavrão. Certo que algumas mudanças precisariam ou poderiam ser feitas: ao invés da cidadezinha americana poderia se passar em algum município do interior de São Paulo; no lugar de Clint Eastwood seria o Tarcísio Meira; o trauma de guerra seria substitúido pelo pesadelo da ditadura; os vizinhos asiáticos seriam trocados por uma família pobre e de bem; e no lugar do Gran Torino poderiam usar o Ford Corcel do meu vizinho.
Fora isso, seria o mesmo filme, o mesmo argumento, o mesmo roteiro, as mesmas cenas, os mesmos planos, os mesmos enquadramentos (porque são nestas etapas que brasileiro caga tudo), e eu pediria também que mantêssem a trilha sonora, por favor.
Não consigo prever se a mistura dos ingredientes desta receita dariam um bom resultado, mas ta aí um filme que eu ficaria curioso para assistir. Consigo até prever o que os críticos iriam alegar, eles diriam que o filme parece americano (o que seria um tremendo elogio...), ou que uma história destas não tem nada a ver com o Brasil (...eles não conheceram meu vizinho). E mesmo a violência não iria ferir o espectador, pois quem assistiu "Gran Torino" sabe que ela é usada na história como um dispositível desesperador, rendendo um final penoso ao personagem principal, e não como nos filmes de tráfico nacionais, onde a violência é celebrada feito um Cannibal Holocaust.

Precisamos que o cinema brasileiro deixe de ser brasileiro, precisamos de situações de âmbito mundial, precisamos de personagens onde qualquer um, indiferente da classe ou país, se identifique. Estes personagens e situações até podem se desenrolar em plena catinga nordestina e retratarem o cenário social do lugar, mas é necessário que as emoções e atitudes de quem lá vive sejam compreensíveis e não apenas ajam de forma ensaiada como meio de operar a mensagem do realizador.
Clichés são construídos de situações chaves (quem não conheceu o valentão na escola? quem não conheceu o nerd? quem não ganhou uma espinha no nariz em um dia crucial?) nosso cinema não tem clichés para seguir porque até hoje nada que foi retratado na tela parece ter sido feito por nós mesmos, ou por humanos em geral.
É dai que vem a idéia de um cinema de gênero, apoiada da necessidade. Todos os países tem uma rica cinematografia de suspenses, ficção-científica, terror, comédia (considerando o fato que estou apertando um Delete em toda comédia nacional) ou ainda de sub-gêneros como os filmes de vingança, os de assalto a banco, os de desastre, os de esporte... nós não somos todos iguais, um país precisa de uma diversificação assim para constituir um cinema.
Os filmes brasileiros já nascem com défict de atenção, com uma certa arrogância de serem a nova jóia preciosa da arte desde a primeira linha do roteiro, enquanto que os filmes de gênero se apóiam na simplicidade e fazem dela sua aliada.
Eles querem apenas passar duas horas conosco e nos contar uma boa história, o que às vezes, pode ser tudo o que mais precisamos.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

As sombras de Scarlet Street

Um dos registros mais concretos sobre o incoerente estado da arte data de 1945, mas se mantêm vivo até hoje, "Scartlet Street", um dos grandes títulos do cinema noir, mas raramente citado, investiga o desfocado e injusto mundo artístico, principalmente da pintura, onde apenas por um improvável raio de sorte aquele que é talentoso é realmente reconhecido.

Em "Scarlet Street" um homem de meia idade vive a tragédia de não ter uma mulher que o ama, não poder a se dedicar a pintura (que por falta de tempo acaba virando hobby de fim de semana), e a velhice que não tarda a se aproximar. O que por sí só é um dos argumentos que acredito ser dos mais tristes: uma vida que não está sendo vivida.

Mas a infelicidade de Cris parece acabar quando ele conhece uma jovem garota na rua, Kitty, que se interessa de imediato pelo homem, sem que ele sabe que por trás ela está interessada mesmo é em se aproveitar do dinheiro e das telas dele que ela acredita serem famosas. A armadilha perfeita está preparada: depois de meio filme, Kitty começa a vender os quadros que Cris pinta como se fossem seus e as simples obras do homem começam a fazer sucesso. Aqui está a primeira facada no rim, os quadros são um sucesso não pelo que são, mas porque os compradores acreditam que são a bela jovem que os pinta.

Segunda facada: Cris descobre que Kitty está vendendo os quadros e colocando seu crédito, mas ao invés de ficar irritado ele fica muito feliz em saber que seus desenhos estão enfim sendo aceitos e aceita continuar pintando por trás das cortinas, o que simboliza muito bem que o artista desesperado aceita até mesmo vender um braço para o cramulhão caso isso enfim faça as pessoas virarem o olhar para sua arte.

Normalmente as pessoas não vêem mal em dissecar filmes antigos, mas eu prefiro mantêr puro o olhar daquele que ainda não assistiu, deixando que este descubra o poder de "Scartlet Street" por sí mesmo, mas cabe destacar que nada em toda a película vem a superar o terceiro ato, que vem como um vendaval aplicar a justiça em todos aqueles que manipulavam Cris e apontar uma seta gigante no distorcido mundo da arte. Acaba sendo tão trágico que sentimos o 'The End' ser cravado como uma cruz em uma sepultura. Dirigido por Fritz Lang e brilhantemente estrelado por Edward G. Robinson e Joan Bennett (em uma das femme fatale mais destrutivas da era preto e branco), "Scartlet Street" é um filme dark e até mesmo muito pessimista, que cria uma certa intervenção e questiona, com perseverança, a noção no que valorizamos.

Fall Be Kind


Fall Be Kind. Novo EP. Vazamento. AC. 5 canções. Sons eletrônicos de Supernintendo. Selva de espíritos. Flauta. Clima de história infantil para dormir. Captura de ectoplasmas. Download.

Catástrofe

Quando a dúvida do final de semana cinematográfico se resume à assistir gente morrer ou o planeta explodir, é porque a coisa ta feia. Empase resolvido sem chances de decisão, a sessão de "2012" se encontrava lotada, com todos ingressos vendidos e fila grande. Sobrou assistir o novo número da série "Jogos Mortais", do qual prometi a mim mesmo que não vou gastar nosso tempo nem kbytes no servidor do blogspot para falar sobre (a quem interessa, tinha preparado algumas piadas, que incluiam chamar o filme de "Jogos Anais" e "Jogos Fecais").
Nove milhões de reais comprovam que subestimei o chamariz de atenção que seria "2012", pelo trailer parecia um filme B (B de Bomba) que até mesmo o público comum iria renegar, e qualquer esperança que poderia existir acabou rapidamente depois de passar pela crítica de Simon Abrams que não perdia tempo em dar nota zero para o filme. Um taxista de Porto Alegre me confirma que eu estava mesmo errado, ele me diz que trabalha no ponto de um dos shoppings da capital e que muita gente mesmo está indo ver o filme, e enquanto ele fala isso o céu fecha sob às nossas cabeças e ele solta uma gargalhada que parece fazer o engarrafamento obeso desaparecer quando eu digo que talvez não seja nem preciso esperar até 2012.
A procura pelo filme de Roland Emmerich no final de semana só comprova que, aparentemente, as pessoas preferem a destruição mundial do que o assassinato arquitetado do outro filme, o que deve servir de tese para o próximo livro do Al Gore e assunto para debates de ecologistas sobre o estado do planeta (para os assustados, a NASA já soltou um comunicado desmentindo a previsão Maia do final do mundo). E chamar de 'destruição mundial' é um tremendo elogio, pois o filme parece ser duas horas e meia de blocos de pixels passando na tela. Não se engane, o responsável por "2012" não é Emmerich, é a placa 3D GeForce.
Então ainda não assisti "2012", mas adoro estes blockbusters testosteronizados e fugazes, são filmes onde ninguém dá muita bola para o que está acontecendo com a história, as pessoas falam durante a exibição, mexem no celular, ninguém se chateia. Torna-se até inútil nadar contra a corrente. E depois de ver tanto drama clássico que me transformaram em um poeta do sentimento, isso é tudo que estou precisando. É que nem aquelas balas azedinhas que você põe na boca e sente o azedume tocar a tua alma, é desagradável, mas é bom, ou eu que sou masoquista...
Assim que as filas diminuírem e meu saldo financeiro ajudar vou tentar pegar alguma sessão de "2012", isto se até lá ainda sobrar alguma sala de cinema em pé.

- Assista um behind the scenes sobre os efeitos especiais do filme